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Lembranças da minha avó Mana

A vida é um dormir e acordar constante, onde todos os dias amanheço mais lúcido, e muitas vezes mais cansado. Mas lembro de uma época que dormir na inocência e acordei mais feliz.
O futuro, ainda não existia e o passado era o único caminho para a sabedoria. E foi assim que a minha vida começou a trilhar, quando eu ainda tinha pouco menos de 6 anos, e Ana Rita, minha avó, já passava dos 70, duas esferas de mundos diferentes colocadas sob o mesmo tempo.

Descobri que eu era um livro branco e a minha vó Mana era o seu tinteiro, e quando estávamos juntos, eu podia viajar ao passado, conhecer outros lugares, outras culturas, tudo era tão cheio de vida e sentimentos. A nossa ligação ficava mais forte a cada dia. Lá fora o universo queria entrar em mim, mas quando estávamos próximos, eu estava em outro mundo, o mundo que eu me encontrava. Era rotina todos os dias ao chegar da escola correr para sua casa em busca de aventuras, paz e guloseimas.

Mesmo sua casa sendo tão solitária para uma criança, ela tinha um grande quintal cheio de árvores frutíferas, e o mais emblemático para mim era um flamboyant e um bougenville os quais estendiam pela sua faixada e durante a primavera desabrochavam lindos cachos de flores. Todo aquele verde vivo se misturava com o vermelho púrpuro e rosa, fazendo de sua casa um jardim secreto que me levava para um mundo encantado repleto de alegrias.
Por que eu era tão importante para minha avó eu não sabia, mas ela foi uma grande genitora, teve 13 filhos e 41 netos, no entanto, a vida arrebatou quase todos para longe de si. E na sua velhice, meu avô ficou cego e surdo. Talvez essa era a razão dos seus olhos brilharem tanto com a minha presença. Tudo que ela comia sempre guardava uma porção para mim.

A nossa convivência acontecia sempre na sala de visitas, onde havia um sofá cumprido que era meu divã. Ali eu me deitava e relaxava-me e ela se sentava no sofá pequeno à minha frente. Bastava poucos minutos e já estávamos entrosados e prontos para a nossa viagem. Na minha visão ela era como um teatro vivo, pois articulava, mudava de voz e fazia expressões. E mesmo repetindo os fatos inúmeras vezes, eu não me importava, pois a minha presença para ela era como uma plateia de mil espectadores. E foi numa dessas viagens que passei a conhecer um pouco a história do romance dos meus pais, os primeiros dias da minha cidade e seus embates na vida. Nessa altura já não me via como um livro branco, havia muitas histórias de guerra e amor dentro do meu jardim. Mas, um dia o tempo trouxe a visão do futuro. Deus levou a minha avó, sem que eu estivesse por perto, não tive forças para ir ao seu enterro, não queria acordar. Foram muitos os dias de tristeza tornando-me prisioneiro do tempo. Eu não compreendia, me sentia perdido e inútil. Mas a luz se fez presente, e comecei a buscar a minha avó voltando ao seu passado. E cada vez que ali estava, eu voltava mais feliz, eu estava mais forte. Até que um dia eu deixei de ser um livro e passei a ser o tinteiro capaz de refletir a razão de tudo aquilo. E foi neste dia, que acordei do meu sonho de longos anos.

E justamente agora em 2015, completa-se 20 anos da sua partida. Estou aqui para prestar este singelo depoimento em sua homenagem e pelo seu grande feito em minha vida. O seu legado é muito mais do que as minhas humildes palavras. E aconteça o que acontecer, estaremos sempre juntos, pois o que nos unem está além de qualquer fronteira.

Texto: Marcos Domicio (neto)
Autor do vídeo: Zé Melo (neto)
Foto: Domingos Belarmino (filho)

Terei o maior prazer em ouvir seus pensamentos

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