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Uma Jornada para o Saco dos Bois – Parte I

Saco dos Bois é um pequeno vilarejo com menos de 50 habitantes, localizado a 40 Km de Paramirim, no sudoeste da Bahia. Quem passa por lá tem a impressão de que o tempo parou para apreciar a calma e a paz que reinam soberanas em meio à natureza.

A região fica situada dentro de um vale no esconderijo das montanhas bem longe da civilização.  Os primeiros habitantes a dominarem essas terras foram os índios. O registro do seu legado está presente nas pinturas rupestres e nas feições da população nativa.

Os avós desempenham um papel importante na vida de seus netos. Eles podem ser um grande apoio durante as perturbações familiares. Às vezes são companheiros de brincadeira para os netos, e muitas vezes são modelos e mentores para as gerações mais jovens. Eles também são historiadores, ensinando valores e transmitindo as tradições familiares. Tive o privilégio e a felicidade de crescer ao lado dos meus avós maternos e paternos.

A história que quero trazer para vocês começa no século passado, quando a família dos meus avós viveu no Saco dos Bois. José Arlindo Lopes ainda rapaz, morava no povoado da Barra, distrito de Érico Cardoso, a poucos quilômetros do Saco dos Bois. A Barra era uma região de referência na agricultura, responsável por escoar sua produção de alimentos para as cidades vizinhas como Paramirim, Érico Cardoso e Livramento. José aproveitou esse fluxo comercial para trabalhar como marchante e mercador, mas o trabalho não era tão simples. Para isso precisava fazer contatos e buscar oportunidades de negócio, que normalmente ficava em lugares muito isolados. Ainda de madrugada, selava seu cavalo, com duas bruacas e às abastecia com carne, rapadura e restas de alhos. Como um cigano que busca um destino, por muitas vezes, cavalgou dias e noites passando pelas regiões de Santa Teresa, Brejo, Mimoso, Tropeiro, Caraíbas, Curral Velho, chegando a alcançar as cidades de Itanajé e Livramento. Muito comunicativo, tinha um jeito especial de falar e brincar com as pessoas, nas horas mais calmas, frequentava os bares, bebia uma pinga e fazia novos amigos. Zé Arlindo como ficou conhecido, chegou até ser músico de uma Banda da Barra.

Na última filheira de baixo, da direita para esquerda:
José Arlindo e o grupo da Filarmônica da Barra de Érico Cardoso

Enquanto isso nas proximidades da Barra, região de Paramirim, existia um povoado que habitava o cume de uma serra de quase 1000 metros de altitude, esse lugar era conhecido pelo nome de Olho D’Água. Entre seus poucos habitantes que ali morava, estava a presença da família de Antônia Rosa de Jesus com seus cinco filhos, Áurea Rosa, José Carvalho, Ilda Rosa, Ana Rosa e Maria Carvalho. Por ter sido parteira e muito popular, fazia partos no Brejo, Saco dos Bois, Santa Tereza e em outras comunidades da região. Fez os partos de suas filhas e nora. Além dessa função, ela também era barraqueira, vendia café com bolo e rolo de fumo nas regiões de Érico Cardoso, Paramirim e Morro do Fogo. Um dos fatos mais curioso sobre a vida dessa guerreira é que ela teria sido mestiça de uma população indígena dizimada por fazendeiros. Sempre relatava a seus filhos que sua bisavó teria sido uma índia capturada por caçadores.

Mapa da trilha para o Saco dos Bois – Rota Caraíbas

Em 1932, a região sofria com uma terrível seca, muitas famílias estavam passando fome. Na esperança de dias melhores, o esposo de Antônia, Otacílio Carvalho, viajou para Morro Agudo, cidade de São Paulo, em busca de trabalho, desde então nunca mais deu notícias. Como se não bastasse as dificuldades, Antônia estava gravida de cinco meses da sua filha caçula, Maria Carvalho. Não podia plantar, não havia alimentos e a casa estava cheia de crianças. A única saída que a família encontrou para sobreviver, foi a extração do pó das folhas do coqueiro licuri, bastante valorizado na época. Um certo dia, enquanto fazia a coleta das palhas, um coqueiro desabou sobre o pé de Antônia, deixando-a quase paralítica. Sem mais condições de sobreviver, a família foi obrigada a se mudar para Cachoeira Grande, para trabalhar em um terreno de Ostaquinho, região de Paramirim. Antônia ficou quase dois anos acamada e quando se recuperou, só conseguia andar com ajuda de um cajado. Ali eles trabalharam por alguns anos, e depois se mudaram para o Saco dos Bois, onde a filha Ilda estava morando.

Nos três primeiros dias de fevereiro, as serras viravam um verdadeiro formigueiro, os aldeões saíam de suas casas com destino a Canabravinha, uma pequena comunidade de Paramirim. O festejo católico era tão popular, que conseguia arrastar multidões dos lugares mais longínquos, como Bom Jesus da Lapa e São Paulo. Entre seus visitantes estavam a presença de mercadores, ambulantes, mascates e até mesmo ciganos. Pouco a pouco, o pátio do vilarejo ficava lotado com a presença de cavalos, carros de bois e os carros pau de arara. O lugar se transformava em uma grande feira-livre, com muitas barracas de comida, bijuterias e peças de roupa. Para os mais jovens uma ótima oportunidade de compra e de conhecer novas pessoas. Para os casais compromissados, data preferida para o matrimônio.

Como de costume, José compareceu na festa, mal sabia ele que o destino lhe reservava uma surpresa. Naquela noite, quando ele passeava pela multidão, se esbarrou com Ana Rosa. Ele tinha fama de namorador, enquanto Ana era uma mulher madura e inteligente.  José conseguiu conquistar o coração da dama, mas Ana conseguiu conquistar o casamento. No dia seguinte eles se casaram na igreja de Canabravinha. José usou todas as suas economias e comprou uma propriedade no Saco dos Bois.

José Arlindo e Ana Rosa na casa da filha, debulhando feijão – janeiro de 2015
Ana Rosa debulhando feijão catador – janeiro de 2015
Marcos Domicio e seu avô José Arlindo – agosto 2010

Última Atualização, segunda, 28 de outubro de 2019

2 Comentários
  1. Tive a oportunidade de conhecer essa comunidade e adorei, local onde possui uma paisagem linda de pessoas acolhedoras. Muito bonita a história dos seus avos Marcos, parabéns…

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